domingo, 9 de março de 2014

DESABAFO

Isso e nada mais. Continuará sendo somente esta a rotina, de qualquer um de nós. Alguns poucos fogem, ou tentam. Alguns dedicam alguns dias, semanas ou meses para viverem de verdade. Mas a esmagadora maioria nem imagina que outra forma é possível.
Às sete horas o relógio desperta e você levanta, assim como foste despertado para o primeiro choro depois de sair do calor físico materno. Em pouco tempo, alguém, por achar que você era sua propriedade, marca sua aparência com cores bem distintas e enfeites específicos, dependendo do seu órgão genital. Donos de sua consciência ainda te batizarão e prometerão, a um ser invisível, que aquela nova criatura que nem imagina o que está acontecendo será seu cordeiro.
Pois bem, já estás de pé, sete e meia, atrasado, se limpando com produtos mágicos que você só tem acesso pela indústria. Ou você sabe exatamente o que fazer se as fábricas de pasta de dentes sumirem de uma hora pra outra?
Não se preocupe, um tempo atrás seu quadril também estava envolto por uma fralda descartável, seus brinquedos de plástico coloridos carregavam uma marca atraente aos pais consumidores e até seu alimento só é providenciado através de uma visita a algum palácio do consumo. Que cada vez se torna mais atraente, iluminado, com cores vibrantes.
Veste sua roupa, e nela estampada, ou etiquetada, alguma marca que você pagou para usar. Isso mesmo, você faz propaganda para alguém, que ganha muito dinheiro com isso e ainda por cima paga. Quanto mais dinheiro a marca ganha, mais você paga para desfilar de garoto propaganda dela.
Dá um beijo no companheiro(a) de cama antes de dividirem seus caminhos rotineiros, pensando no que deu errado, pois não se aturam mais a ponto de não fazerem mais sexo. Durante o dia criará fantasias com outras pessoas e voltará para casa sem nem sequer cogitar levar a cabo o que imaginou, pois está ancorado no seu relacionamento, mesmo que o amor já tenha virado um jogo de tabuleiro, que de vez em quando é retirado do armário na forma de algum gesto carinhoso.
As paixões são realmente a melhor parte da vida, você percebe isso após a puberdade, porém aproveitará pouco, por quanto mais você se experimenta, mais imoral isto parece e mais reprimido você é. Depois, terá escolher alguém e se agarrar até o final da vida, como é o aceitável.
Quanto a estar apaixonado, é a essência da inspiração, e se escrevo aqui é por que por detrás da tela se projeta no meu inconsciente, os olhos da pessoa que queria que estivesse aqui. Sentir o cheiro a cada respirar, sentir a pele a cada superfície que possa minimamente ser macia, ouvir a voz a cada devaneio e sentir-se fraco estando longe. E essa sensação é doce e dolorida. Delirantemente complicada e deliciosamente simples.
Enquanto isto, você não pode se dar ao luxo dessas sensações, nem ao menos a pensar. Agora é o momento do dia (a maior parte da parte útil dele) em que você está vendendo seu corpo e sua mente a alguém, em troca de um pouco de dinheiro. Este pouco de dinheiro será o suficiente para você morar, comer e se sentir iludidamente feliz em alguns momentos.
E por que você é obrigado a viver assim, se a terra oferece as riquezas a todos, sem plaquinha de patrimônio? Porque você tem todo um sistema de pessoas, máquinas, papéis, leis e principalmente armas, que estão aí para defender esta forma de ordem. Obviamente esse complexo sistema, além de sempre ser parcial, é incompetente por natureza em prestar os serviços mínimos necessários para que todos vivam bem.
Ao final, você está de volta ao mesmo lar, e basta ligar a televisão para receber uma rajada de ideias prontas pensadas exclusivamente em te manter no mesmo lugar. No máximo destinada a fazer você almejar comprar algo, de alguma marca. Assim como acabará a sua vida útil, e você estará já sem forças para produzir. Então você ficará sentado, admirando a dignidade de tudo que você fez na vida, que na verdade não foi nada para o seu real querer. Afinal de contas, já será tarde para perceber que nunca foi e jamais será livre.

R.F.

domingo, 28 de abril de 2013

DESPERTAR

          Ele levantou cedo, vestiu a camisa e a calça demoradamente. Caminhou até o banheiro, fazendo o mínimo possível de barulho. Ao passar pela cozinha, ligou a cafeteira e, após se lavar, preparou a costumeira torrada. Não a fez para ele, afinal de contas, o café da manhã é o mínimo de romantismo que ainda deve restar.
            Voltou ao quarto, calçou seu all star e beijou-a com um tom de despedida. Sabia que ela estava dormindo, mas dada a inconsequência da mente dela não sabia quando voltaria a vê-la. Atravessou o apartamento enquanto vestia seu  sobretudo, abriu a porta e desceu o lance de escadas que o lançaria à rua.
            Era jovem, mas se sentia alheio à juventude. Pensava consigo se era ele que tinha um fascínio pela música e pelos hábitos de outra época, ou simplesmente era essa geração que estava perdida. Talvez se tivesse vivido nos anos 60 ou 70 não pensaria assim, provavelmente iria detestar os Beatles e procuraria algo que ninguém gostasse. Poderia se tornasse um punk, afinal, a nossa vontade sempre busca o que não temos e viver como nossos pais, como diria o poeta, seja uma forma de buscar abrigo.
            Acendeu um cigarro, maldito cigarro. Alcançou o ponto e para sua sorte já conseguia avistar o ônibus que vinha a algumas quadras. Por incrível que pareça, deixou-o passar pelo simples fato de poder terminar seu cigarro.
            Essas pequenas escolhas mudam todo o desenrolar de um dia, e se pararmos para pensar na vida, ela é como uma roleta russa. Ele poderia ter tomado aquele ônibus e nele ter encontrado alguém especial, com quem pudesse ter uma ótima conversa, adicionar no facebook, namorar, criar filhos, enfim, tudo o que normalmente as pessoas um dia fazem com alguém que consideram especial.
            Procurar pessoas especiais é uma perda de tempo. E para ele a vida era algo totalmente aleatório, sem nada predestinado. Pensar nisso lhe causava depressão, ainda mais ao lembrar do que ela dizia. “Meu bem, por favor, te desprenda de tudo que fazes pensando no que os outros vão pensar. Pense só, sua vida inteira desperdiçada em algo que no fundo de nada valeu. Se fôssemos bons atores, isso ainda poderia parecer belo.”
            Mas o problema não é a beleza.
            Afinal, ao ator, rei dos artistas, ninguém precisa mais prestar homenagens. “O palhaço sempre conduzirá o espetáculo”. Claro, pouco valorizados, alguns fazendo bicos em outras áreas, talvez interpretando políticos, pegando emprestado da arte alguns discursos inflamados e olhares de persuasão.
            Mas se concentrara na frase, claro, era isso que ouvira na noite anterior e agora era o momento, percebeu. Começou a se debater como quando se sente muito frio, mas agora era de calor.
            Esquentou o sangue, como se o cérebro, na hora em que ele concluiu o pensamento, mandasse um aviso para o corpo se preparar. Vibraram os nervos, como se sua mente desejasse se vingar do fato de não ter ao menos pensado nessa solução. Traída por si mesma, ingênua e exposta, maldita mente e malditos bons atores. Os músculos enrijeceram. Era a hora, na verdade, já havia passado da hora.
           Caminhava como se ninguém pudesse pará-lo, passos largos e rápidos, seus músculos uivavam de tensão. Mais suspeito impossível, mais do que se estivesse correndo. Os punhos cerrados deixando transparecer que o ódio já começava a lançar na sua mente os sentimentos de mágoa e de rancor, que, por sua vez, começavam a se confundir com o arrependimento. Isso não era bom.
            Não se faz nada que o arrependimento já tenha condenado a não acontecer. Por isso a pressa.
            Chegou à porta com a pistola já na mão, entrou e foi cego ao quarto. No instante em que mudou de ambiente, ainda mais para este ambiente, lembrou das primeiras palavras dela. “Eu tenho o direito de interpretar e imaginar suas reações como eu bem entender, então agora é a sua vez, ou vamos brincar de outro jogo”.
            Baita atriz, lógico que a reação de qualquer um seria beijá-la. A performance foi ótima.
            Ela não estava na cama. Na cozinha, o prato vazio.
            Por um instante, aliviou-se. Inconscientemente sua mente já começara a trair sua vontade. Só restava, após o banheiro, que estava exatamente como ele havia deixado, a área de serviço. Ela tinha uma corda lá, as vigas do telhado sem forro, o nó estava perfeito.
            Abaixo a carta explicava tudo, e não mencionava seu nome. Entendera tudo errado, como era idiota. Percebeu que ela foi sincera, sempre, e agora não havia mais o que fazer, ela o libertara, Talvez isso fosse o que alguns insistem em chamar de amor.
            Precisava ir, antes contemplou-a pela última vez. A pistola ainda estava na sua mão.




            Rodrigo Fortes

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A Lua é frustrada

não gostaria de ser a Lua
de forma alguma!
imaginem, você tenta escapar do lugar onde está quando percebe que não irá gostar do que esta por vir
e como castigo, você fica eternamente orbitando, "rodiando" esse lugar
com um olho para sua ex-casa, vendo tudo aquilo que queria fugir acontecer
e outro olhando longe, olhando O Tudo, a beleza dum Universo em que em sua maior parte, não existe a podridão que seu outro olho enxerga

G.G.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Da Flor


Provar da flor
do ventre
Que ele mesmo
Fez ser
por plantar

Leve, limpo, sublime
Luxurioso e insensato
Na presença
Ausente
na ausência
Imenso

Sem fim
Sem meio
Sem meio termo

Nem meio filme
Nem meio espelho
Nem meio whisky

Meio sórdido
Meio sufocante
Meio sádico
No início
e sempre
de si próprio

R.F.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

a Dona

Tinha algo além da indecisão que a atordoava, e não era nada banal. Não era algo como recado indesejado dado, como que sem o aviso prévio da consciência de quem lhe entregou. Seria bom se soubesse o que era. Parecia-se com a angústia, mas não era tão sufocante.
Levantou de sua cadeira, provocando o assombro de todos, segurando em uma mão a .380 e em outro, a flanela. Sabia que era um cuidado quase desnecessário, se não se levar em conta, claro, a estética do momento em que fosse necessário usá-la. Pensava nisso inclusive como requinte de crueldade, não que se orgulhasse disso.
– Não vou ficar parada esperando pelo que não virá - disse a uma voz que beirava a sutileza do barulho de seu caminhar, mas audível o suficiente a todos da sala.
Se lançou porta afora, para sair a rua.
Os outros ficaram se olhando com o rosto encharcado de perplexidade, como que se por alguns segundos estivessem tentando sintonizar um a mente do outro para entendê-la, e decidir como agir.
Os dois homens de capa saíram atrás dela, sem nenhuma vontade de impedi-la ou dissuadi-la, menos ainda por preucupação com o fato de ela ir sozinha, sabiam que quem estaria lá não causaria problemas a ela. Estavam há dois dias naquela incerteza e sem ação.
– Malditos, realmente souberam nos deixar confusos – e percebiam que nisso, os seus oponentes neste Jogo eram mestres.
– Já que estamos entre amigos agora, que tal contar realmente o porque do anel estar contigo.
– Já lhe falei, não posso, não sou desleal, e juro que não foi da Dona que peguei.
– Achei que nossa lealdade fosse maior que qualquer outra. Não sou do tipo sentimental, mas entreguei a você meu caro, não só a minha amizade, mas meu coração.
– Cala a boca! Entregou sim seu corpo, para sanar suas necessidades, admita. Agora quer fazer joguinho emocional.
– Mesmo que fosse, o fato de estar contigo pode ser muito importante para a nossa estratégia, a não ser que você não esteja jogando só do nosso lado.
– Como ousa, dizer que me ama e suspeitar assim de mim.
– Esse seu olhar nunca me enganou, você é o traidor, você entrega os nossos passos. Como sou idiota – berrou sacando o 32 que estava no cano de sua bota.
Caiu antes de conseguir fazer a mira, seu movimento fora previsto, seu companheiro de crime e de cama o olhava, aterrorizado consigo mesmo.
Dentro daquele olhar de terror restou a dúvida. Por que seu amado alvo não sacou a pistola da cintura? Se o tivesse feito, não teria tempo de sacar a sua, e estaria morto. Ele era profissional e essa falha não poderia ter sido fruto do acaso, ele fez de propósito, como uma última prova de amor.
Os outros dois agora esperavam dentro do carro conversando:
– Já pensou como as pessoas agem de maneira mecânica?
– Trabalhar, estudar, etc?
– Não só isso. Se interessar pelas coisas, parece que cada paixão, cada nova invenção é um dentinho de uma engrenagem, e não importam as escolhas.
– Tipo... destino?
– Odeio essa sua mania de responder tudo com uma pergunta.
– Como agora?
– Não é destino, é tudo aleatório mesmo. Você perde um ônibus e ao pegar o próximo encontra alguém, que é totalmente aleatório, e tem uma conversa que muda sua vida. Mas não pensa que no ônibus perdido você poderia ter encontrado uma pessoa que pudesse te apaixonar, proporcionar filhos, lar com cachorros e tudo, essas coisas. Entende?
– Não.
Os tiros.
– Vamos lá, só não entendi essa de não matar antes de dez minutos.
– Deve ser para se ter certeza da distância.
Ela entrou no carro, e enquanto andavam começou a contar como fora, dos capangas baratos, da Dona amarrada, conseguia disfarçar exatamente suas emoções, com frieza andou naquela carona, contou quase uns dez minutos, para dar certeza de uma distância mínima. Os dois imaginavam que ela jamais sacaria o plano, mas não, e perderam bons minutos, quando aconteceu nem dera tempo de fazer como os agentes. Não daria tempo para nada mesmo, o carro explodiu.
Enquanto isso, ele continuava na sala, com a arma na mão. Agora parou para pensar que boas decisões deveriam ser tomadas quando regadas a whisky, preferencialmente ao som de Lynyrd, o whisky tem essa peculiaridade fantástica, de proporcionar momentos bons para tomar decisões. Depois de ter ouvido todo o plano, percebeu o quanto era miserável, idiota, inútil, e manipulável. Não lhe restava alternativa, era impensável, como se um instinto natural o levasse a atirar.
O último, por sua vez, tomou mais um gole de whisky, pôs edge of forever para tocar, começou a falar, falou tudo que era necessário, delicadamente, sem restar nenhum pingo de remorso. Afinal, o plano dera certo. O anel não era da Dona, claro que não, e esse foi seu trunfo.
O casamento com a Dona pelo menos lhe rendera a herança, além do anel.
E os outros dois até ficavam bem, além de bem hilários. – engraçados pra caralho, na verdade, ex agentes hehehe – falou segurando com os dentes o cachimbo.
- E pensar que os dois achavam que iriam ganhar o Jogo, na verdade ganharam, só não receberão o prêmio.
Só uma coisa lhe atordoava, talvez a menina que julgou ser boa o suficiente para fazer o trabalho sujo, fosse boa demais. Ao menos ele sabia o que lhe atordoaria, afinal isso também fora um de seus trunfos.
E de esforço, só o último passo e sabia que lábia para isso tinha, convencer um homem transtornado a se matar. Terminou o serviço e parou para pensar que boas decisões devem ser tomadas quando regadas a whisky....

R.F.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Alguma arte


Talvez me falte alguma arte
Alguma arte na vida
Arte nas relações
Com os números
Com os humanos

Admiro a arte e o possuidor da arte
O que escreve bonito
Um quadro com mensagens
Uma equação elegante
Um malandro de boteco

Talvez me falte alguma arte
Para lidar com as coisas do mundo
Lidar com as equações e com as pessoas.

G.G.

domingo, 13 de maio de 2012

Poesia


A vida não vale a pena sem poesia
certamente
claro que não me refiro
a essa merda que estas lendo nesse momento
estou falando da verdadeira
da grandiosa e bela poesia

Augusto do Anjos, Fernando Pessoa
Quintana, Byron, Bukowski
entre outras mentes iluminadas que me fazem permanecer vivo
mataria-me tranquilamente um dia desses
que a humanidade é porca quase todos sabemos
não sei onde há inteligência nesse mundo
mas enfim, quero como Brás Cubas
deixar a vida sem herdeiros
não transmitir a nenhuma criatura a miśeria de nossa existência.

Enquanto isso faça alguma coisa que realmente valha a pena
pegue seu livro de poesias
e viva.


(G.G.)